F2 · Aulas 5–8

Carga elétrica e processos de eletrização

Eletrostática

Estuda as cargas elétricas em repouso e as forças entre elas. A carga é quantizada: $Q=n\cdot e$, com $e=1{,}6\times 10^{-19}\ \mathrm{C}$ e $n$ inteiro. Um corpo neutro tem tantos prótons quanto elétrons — não tem “ausência de carga”.

Aprofundar

A eletrostática se apoia em três pilares experimentais que a Fuvest e a Unicamp adoram cobrar: a conservação da carga, a atração/repulsão entre cargas de sinais opostos ou iguais e a ação a distância mediada pela lei de Coulomb, $F=k\,\frac{|q_1 q_2|}{d^2}$, em que a força é vetorial e, portanto, exige que você identifique direção e sentido antes de somar contribuições de várias cargas — um erro clássico é tratar a força como escalar e simplesmente somar módulos.

Vale lembrar que a fórmula só vale para cargas puntiformes ou esferas condutoras uniformemente carregadas, com $k\approx 9\times 10^9\ \mathrm{N\cdot m^2/C^2}$ no vácuo. Sobre os processos de eletrização, não basta decorar os nomes: na eletrização por atrito, dois corpos inicialmente neutros de materiais diferentes ficam com cargas de sinais opostos, pois elétrons migram de um para o outro, respeitando a conservação ($Q_A+Q_B=0$); na eletrização por contato, um corpo carregado toca outro condutor neutro e ambos terminam com cargas de mesmo sinal, divididas conforme a geometria — iguais se as esferas forem idênticas, pois $Q_{\text{final}}=\frac{Q_1+Q_2}{2}$; e na eletrização por indução, aproxima-se um corpo carregado sem tocá-lo, separam-se as cargas do neutro por polarização e faz-se o aterramento momentâneo, resultando em carga de sinal oposto ao do indutor.

Como exemplo concreto, imagine duas esferas metálicas idênticas de cargas $+6\ \mu\mathrm{C}$ e $-2\ \mu\mathrm{C}$ que se tocam: após o contato, cada uma fica com $+2\ \mu\mathrm{C}$, e a força entre elas passa de atrativa a repulsiva.

Natureza elétrica da matéria

Prótons ($+e$) e nêutrons no núcleo; elétrons ($-e$) na eletrosfera. Só os elétrons se movem na eletrização de sólidos: corpo positivo é aquele que perdeu elétrons, não o que ganhou prótons. O próton é cerca de 1836 vezes mais massivo que o elétron.

Aprofundar

A matéria é formada por átomos que, apesar de eletricamente neutros no estado fundamental, são constituídos por partículas com cargas elétricas bem definidas: prótons e nêutrons no núcleo, e elétrons distribuídos pela eletrosfera.

O ponto central é que a carga elétrica é quantizada, ou seja, existe em múltiplos inteiros da carga elementar $e \approx 1{,}6 \times 10^{-19}$ C, e a matéria só se torna eletricamente carregada quando há um desequilíbrio entre o número de prótons e o número de elétrons. Como o elétron tem massa muito menor que o próton, ele é a partícula que se desloca com facilidade nos processos de eletrização por atrito e por contato em sólidos; por isso, a carga líquida de um corpo depende apenas do excesso ou da falta de elétrons.

Princípios da eletrostática

Atração e repulsão: cargas de mesmo sinal se repelem; de sinais contrários, atraem-se. Conservação: num sistema isolado, a soma algébrica das cargas é constante — daí, no contato entre esferas idênticas, cada uma ficar com a média $Q'=\frac{Q_1+Q_2}{2}$.

Aprofundar

Os princípios da eletrostática sustentam toda a análise de cargas em repouso, e o primeiro deles, a quantização da carga, estabelece que qualquer carga elétrica é um múltiplo inteiro da carga elementar $e = 1,6\times10^{-19}\,\text{C}$ — não existe carga fracionária isolada, o que explica por que, ao eletrizarmos um corpo, ele ganha ou perde um número inteiro de elétrons. Daí decorre também a lei de Coulomb, que quantifica a força entre duas cargas puntiformes: $F = k\dfrac{|q_1 q_2|}{d^2}$, com $k \approx 9\times10^9\,\text{N·m}^2/\text{C}^2$ no vácuo; repare que a força cai com o quadrado da distância e é sempre de ação e reação, atuando ao longo da linha que une as cargas.

Tipos de material

Condutores têm portadores livres (elétrons nos metais, íons nas soluções e nos gases ionizados). Isolantes ou dielétricos mantêm as cargas presas, e por isso podem ficar eletrizados só em parte da superfície. Há ainda semicondutores e supercondutores.

Aprofundar

A distinção entre condutores e isolantes não é uma questão de "ter ou não ter carga", mas de como as cargas se movem dentro do material. Nos condutores metálicos, cada átomo cede um ou mais elétrons para uma "nuvem" coletiva: esses elétrons de condução são livres para vagar por todo o volume, o que significa que qualquer excesso de carga injetado se redistribui rapidamente até a superfície, buscando o equilíbrio eletrostático — por isso uma esfera metálica carregada tem campo elétrico nulo em seu interior. Nos isolantes, ao contrário, os elétrons estão firmemente ligados aos núcleos atômicos, de modo que uma carga depositada num ponto permanece ali, sem migrar para o resto do corpo.

Processos de eletrização

Três caminhos para desequilibrar as cargas de um corpo: atrito, contato e indução. Nos dois primeiros há transferência efetiva de elétrons; no terceiro, apenas separação — e o resultado final depende de haver ou não aterramento.

Aprofundar

Para entender a fundo os processos de eletrização, é preciso lembrar que os prótons estão presos ao núcleo e só os elétrons migram, o que explica por que todo corpo eletrizado ganha ou perde exclusivamente cargas negativas. No atrito, dois materiais diferentes são friccionados e, como têm tendências distintas de segurar elétrons (a chamada série triboelétrica), um cede e o outro recebe: esfregar um bastão de vidro com seda deixa o vidro positivo e a seda negativa, sempre com cargas de sinais opostos e mesmo módulo. No contato, um condutor já carregado toca outro idêntico e neutro; as cargas se redistribuem igualmente entre eles, de modo que, ao final, ambos ficam com cargas de mesmo sinal e mesma intensidade, resultado típico de esferas condutoras idênticas que se tocam.

Já na indução, aproxima-se um corpo eletrizado de um neutro sem tocar: ocorre apenas separação de cargas, com a região próxima ao indutor adquirindo carga de sinal oposto. O destino final depende do aterramento — sem fio terra, ao afastar o indutor tudo volta ao neutro; com aterramento durante a aproximação, elétrons entram ou saem da Terra, e o induzido fica eletrizado com carga de sinal contrário à do indutor. As provas costumam cobrar a comparação entre esses métodos, pedindo quem fica positivo ou negativo, o sinal final do induzido conforme a presença de terra e situações com esferas idênticas, além de exigir a justificativa de que no atrito e no contato há transferência de elétrons, enquanto na indução há apenas redistribuição, sendo comum a pegadinha de afirmar que o corpo induzido e o indutor terminam com cargas de sinais iguais — o que só vale para o contato.

Por atrito

Dois corpos diferentes atritados: um cede elétrons ao outro, conforme a série triboelétrica. Ficam com cargas de sinais opostos e módulos iguais. Funciona bem com isolantes; entre materiais idênticos, não há eletrização.

Aprofundar

A eletrização por atrito se apoia no fato de que materiais distintos têm afinidades diferentes por seus elétrons mais externos: ao friccionar um contra o outro, há transferência efetiva de elétrons de um corpo para o outro, não criação nem destruição de carga, apenas redistribuição.

Vale lembrar que elétrons são as partículas que migram, pois os prótons estão fixos no núcleo; por isso quem cede fica positivo e quem recebe fica negativo, sempre com o mesmo módulo de carga, já que o número de elétrons perdidos é igual ao de ganhos. A série triboelétrica organiza os materiais segundo essa tendência: quanto mais acima, maior a facilidade de perder elétrons.

Por contato

Corpos condutores em contato repartem a carga total e ficam com cargas de mesmo sinal, repelindo-se ao fim. Para esferas idênticas, a divisão é igual. Se um dos corpos é a Terra, o outro fica neutro.

Aprofundar

A eletrização por contato ocorre quando dois corpos condutores, sendo pelo menos um deles eletrizado, são postos em contato direto: as cargas em excesso se redistribuem pela superfície dos dois, pois nos condutores elas se movem livremente até que o sistema atinja o equilíbrio eletrostático, com o potencial igual em todos os pontos. Por isso corpos em contato ficam, ao final, com cargas de mesmo sinal — e, se afastados, repelem-se. No caso de esferas condutoras idênticas e isoladas, a carga total se conserva e se divide em partes iguais, mas, se os corpos têm tamanhos ou geometrias diferentes, a repartição é proporcional à capacidade de cada um de armazenar carga, não sendo simplesmente metade para cada lado.

Quando um dos corpos é a Terra, considerada um reservatório infinito de cargas, o corpo em contato com ela tende a ficar neutro, pois o excesso escoa para o solo, o que explica o funcionamento do aterramento.

Por indução

Aproxima-se o indutor sem contato: as cargas do induzido se separam. Aterrando o induzido e depois desfazendo o aterramento e afastando o indutor, ele fica com carga de sinal contrário à do indutor. Explica a atração entre corpo eletrizado e corpo neutro.

Aprofundar

A indução só funciona porque, em um condutor isolado, os elétrons livres têm grande mobilidade: ao aproximar o indutor, cada elétron do induzido sente a força elétrica resultante e se redistribui até que o campo interno se anule, criando um excesso de cargas de sinal oposto na região próxima ao indutor e um déficit na região distante. É esse desequilíbrio espacial, e não uma transferência de carga, que explica a atração entre corpo eletrizado e corpo neutro: a face induzida fica mais próxima e sofre força maior que a face de mesmo sinal, mais distante, resultando em força resultante atrativa.

Vale notar que, se o induzido fosse um isolante, não haveria elétrons livres para migrar; ocorreria apenas um pequeno deslocamento das nuvens eletrônicas dentro dos átomos, fenômeno chamado de polarização do dielétrico, que também gera atração, mas muito mais fraca e sem acúmulo de carga livre na superfície.

Eletroscópios

Detectam carga por indução. No pêndulo eletrostático, a esfera leve é atraída e, após o contato, repelida. No eletroscópio de folhas, as lâminas se afastam ao receberem cargas de mesmo sinal — a abertura indica a presença, não o sinal, da carga.

Aprofundar

Os eletroscópios exploram um princípio central da eletrostática: cargas de sinais opostos se atraem e cargas de mesmo sinal se repelem, e é justamente essa interação que permite detectar a presença de carga sem medi-la diretamente.

Vale distinguir dois conceitos que costumam se misturar nas provas: detecção e identificação do sinal. Um eletroscópio bem construído detecta com facilidade se há carga, mas identificar o sinal exige um procedimento adicional, porque a simples abertura das folhas é ambígua — tanto uma carga positiva quanto uma negativa podem produzi-la. Para resolver essa ambiguidade, usa-se um corpo de carga conhecida: aproxima-se, por exemplo, uma barra negativa (sem tocar) de um eletroscópio já carregado; se as folhas se abrirem mais, o eletroscópio tem carga negativa; se se fecharem parcialmente, tem carga positiva.

Guarde essa diferença entre carga induzida (temporária, some ao afastar o indutor) e carga adquirida (permanente, resultado do contato ou do aterramento), pois é exatamente aí que a maioria dos erros aparece: o candidato vê folhas abertas e conclui precipitadamente que o eletroscópio está carregado, quando muitas vezes ele apenas responde a um campo elétrico externo, e é essa confusão entre responder ao campo e portar carga própria que a banca explora para separar quem decorou de quem realmente entendeu o processo de eletrização por indução e o papel do aterramento na fixação das cargas.

Quarks

Prótons e nêutrons são compostos por quarks, de cargas fracionárias: up vale $+\frac{2}{3}e$ e down, $-\frac{1}{3}e$. Assim, próton = $uud$ ($+e$) e nêutron = $udd$ (nulo). Isolados nunca foram observados — o confinamento mantém a quantização em múltiplos de $e$.

Aprofundar

Essa estrutura interna surge porque a matéria que conhecemos é formada por partículas elementares divididas em gerações, e os quarks existem em seis sabores: up, down, charm, strange, top e bottom — sendo apenas up e down estáveis o suficiente para compor a matéria comum, enquanto os demais decaem rapidamente em aceleradores como o LHC. Como os quarks têm carga fracionária, seria de esperar que se encontrassem cargas menores que $e$ na natureza; isso nunca ocorreu, e a razão é o confinamento de cor: quarks carregam uma carga de cor (vermelho, verde ou azul) que só se neutraliza em combinações como $q\bar{q}$ (méson) ou $qqq$ (bárion), sempre de carga inteira.

Ao tentar separá-los, a energia fornecida gera novos pares quark-antiquark em vez de liberar um quark livre — daí a liberdade assintótica em altas energias e o confinamento em baixas.